domenica 7 dicembre 2008

Queimada


Até 2003 minha rotina e de toda dona-de-casa, ou ao menos daquele que não queria deixar que se acumulasse a sujeira da queimada de cana-de-açúcar no quintal, sobre o carro e se deixássemos até mesmo sobre nossas cabeças, era fazer uma limpezinha básica de todas as manhãs. Nada de passar um pano úmido, pois isso deixaria uma sujeira ainda maior. Vassoura na mão e a torcida para que não houvesse vento! E no quintal? Como tirar aquela neve de “cisco-preto” (como dizia minha mãe) sem ser politicamente incorreta? Impossível, ou quase... Para minhas vizinhas era um ritual diário, e vê-las com a mangueira d’agua que se esticava invariavelmente para os dois lados da rua, a minha, a delas, a nossa calçada, era motivo de indignação da minha parte e da quase perda de controle de civilidade. Por certo que um dia eu disse a elas que não desperdiçassem água para lavarem a rua, mas, como no vácuo o som não se propaga (dessa vez como dizia meu avô), lá estavam elas, toda manhã, fazendo a mesmíssima coisa. Eu, por outra parte, me deixava levar pela paisagem cinzenta e solo tomado pelo cisco-preto de todos os dias. Aquilo entrava pelas janelas e pelas narinas indistintamente e alergias eram não somente comuns, como companheiras de todos os anos na época da colheita de cana-de-açúcar. Felicidade para meu pai, trabalho dobrado para minha mãe, diga-se de passagem. Lembro-me de uma tentativa minha de participação na Câmara Municipal para o protesto da queimada da cana, e mais ainda me lembro do olhar do meu pai no jantar daquele mesmo dia, quase o mesmo que sentia fuzilar-me a nuca na sessão da Câmara: eu na primeira fila e parentes na última... Como explicar meu ponto de vista e como entender o deles? O interessante de lembrar-me de tudo aquilo, é que passados quinze anos, o prefeito da cidade pode ter a mesma lembrança minha... e sabe-se lá o que anda fazendo hoje quanto àquele assunto que um dia me estragou o jantar.
Ok, mas o que me fez lembrar disso tudo? Juro que foi o gelo que tive que tirar dos vidros do carro antes de levar as meninas para a escola... juro...

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