Há alguns dias que coloquei U2 para me acordar pela manhã. Digo pela manhã, pois atualmente, tenho que deixar sempre um despertador pronto a me avisar disso ou daquilo. O sossego, já dizia Guimarães Rosa, traz desejos, e o meu ultimamente tem sido dormir e dormir. Lembro-me muito bem dos tempos às claras que já passei, lembro-me também dos meus bons tempos de sono da primeira etapa de minha vida. Essa mesma vida que agora me diz sempre que afinal as horas são curtas demais e dormir somente as encurtam mais e mais. O que fazer se o sono que insiste me leva pra outro mundo e esse outro mundo me embriaga? O jeito é sempre deixar U2 me chamar para o lado de cá, mesmo que o verdadeiro U2 já esteja noutro... nesse... no meu para sempre mundo louco mundo. E de vez enquando, espero ouvir do outro lado.
Aprendizado de quem já girou o mundo, de quem já viu e ouviu muita coisa boa e ruim, de quem já foi estrangeiro, achou que já não era e sente que será sempre um de alguma maneira, de alguém enfim que ainda está aprendendo e ainda fazendo planos e malas.
domenica 30 novembre 2008
Contagem regressiva
Depois das aulas das meninas, depois do banho, do lanche e das tarefas feitas, sentadas no chão da sala, uma de cada lado e eu da cozinha dando as coordenadas de como a via aquí de longe, finalmente nossa árvore de natal está de volta no cantinho da sala, pronta, com suas bolinhas douradas e vermelhas, suas luzinhas brancas e com os enfeites feitos por cada uma delas na escola no ano passado, esperando pelos deste ano que acredito estão por chegar a qualquer momento. Lá está ela, perto da calefação que também foi ligada hoje, pois o frio deste ano demorou um pouco para nos assustar.
Fui revendo os enfeites um a um, tirando-os das caixas e dos saquinhos cuidadosamente empacotados e guardados não faz muito tempo, pra dizer a verdade, parece que foi na semana passada que o Nona chegou para passar o Natal conosco. Parece mesmo que o ano nem passou direito como devia passar, quero dizer, com as vinte e quatro horas normais por dia, com os finais de semana e com os planos de quem pretende passar férias em algum lugar. Passamos as férias longe, ficamos tempo demais em outro lugar para nos lembrar de como foi o verão por aqui, afinal de volta, recomeçamos, mas parece que o tempo não deveria ter passado e no entanto passou por aqui também. Tolice. Estamos todos com essa sensação de ano encurtado, contado de dois em dois meses: O Nona vai chegar daqui a dois meses! O Nona vai embora daqui a dois meses e a Nani com o Tata chegam para ficarem dois meses conosco! Quando eles partirem, pegamos o avião e vamos passar dois meses nos Brasil! E... aqui estamos.... quando chegamos em casa novamente, faltavam dois meses para o Natal... Agora falta muito menos...
Fui revendo os enfeites um a um, tirando-os das caixas e dos saquinhos cuidadosamente empacotados e guardados não faz muito tempo, pra dizer a verdade, parece que foi na semana passada que o Nona chegou para passar o Natal conosco. Parece mesmo que o ano nem passou direito como devia passar, quero dizer, com as vinte e quatro horas normais por dia, com os finais de semana e com os planos de quem pretende passar férias em algum lugar. Passamos as férias longe, ficamos tempo demais em outro lugar para nos lembrar de como foi o verão por aqui, afinal de volta, recomeçamos, mas parece que o tempo não deveria ter passado e no entanto passou por aqui também. Tolice. Estamos todos com essa sensação de ano encurtado, contado de dois em dois meses: O Nona vai chegar daqui a dois meses! O Nona vai embora daqui a dois meses e a Nani com o Tata chegam para ficarem dois meses conosco! Quando eles partirem, pegamos o avião e vamos passar dois meses nos Brasil! E... aqui estamos.... quando chegamos em casa novamente, faltavam dois meses para o Natal... Agora falta muito menos...
Piratas do Caribe
Ontem tivemos nossa sessão de cinema. Todos os quatro na cama, com pipoca e os piratas que continuavam o segundo episódio depois de uma semana de interrupção e, o mais importante, muitas perguntas e respostas, comentários e críticas que não tinham nada a ver com aquele cenário de pirataria na tela do televisor. Na verdade, há tempos que não fazíamos nossa reunião familiar assim, quietinhos, acarinhando um ao outro e esperando para ver quem dorme primeiro. Afinal, Isi dormiu primeiro como o esperado, e logo foi levada para cama com todos os peluches que necessita para passar a noite. Papai acho que dormiu quase que instantaneamente junto com a Isi, não temos certeza, pois sempre respondia às perguntas de nossa linda a cada cena um pouco confusa para sua cabecinha. Eu, bom, eu estava alí, esperando para ver qual navio ia naufragar primeiro, qual pirata sairia do calabouço e a quem deveria levar pra cama. Fui a última, logicamente, mas a reunião foi muito boa... recarregamos energias...
Batatas ao vento
Há muitíssimas coisas que me irritam e todos já sabem disso quando percebem minha cara subitamente se transformar se algo que não concordo acontece pelas redondezas, digamos assim. É notória minha mudança de humor e isso já me causou muitas discussões domésticas por causa desse jeito nada light de ser, mas o que posso fazer se a culpa está nos meus genes (vênetos, por carità)? Cada vez que vejo aquela neurose por sistematizar tudo, arrumar tudo, deixar tudo nos seus devidos compartimentos, coisa que a vida nem sempre permite, vejo o quanto inútil foi a distância que meus bisavós quiseram colocar entre essa terra e meu nascimento fora de lugar.
Às vezes, quando viajamos, e somente quando viajamos, acabamos indo a um fast food local por motivos práticos (língua ininteligível ou aquele banheiro muito bem vindo nos momentos mais inesperados por exemplo). Isso não deveria ser uma desculpa, mas quando se tem duas crianças e um orçamento controlado entre hotéis e passeios, um restaurante típico acaba ficando como evento e não como regra. O fato é que cada vez que frequentamos um lugar desses, vejo e ouço coisas que me causam aquela indegestão típica de um hamburger com batatas fritas. Adoro batatas fritas, e de vez enquando, até um hamburger bem feitinho me vai bem, se me esqueço do politicamente incorreto que é comer nesses lugares decorados de vermelho e amarelo. O que me chama sempre a atenção é o porque da maioria das pessoas que vemos ali serem obesas ou quase obesas (ok! Isso é evidente, eu sei, mas se assim é, por que continuam a comer aquelas comidas horrorosamente calóricas?) e se não o são, desperdiçam os alimentos descaradamente jogando-os naquelas bandejas dentro daqueles contenitores horrorosos. Saquinhos inteiros de batatas fritas, para não dizer do próprio hamburger meio comido meio deixado, por esnobe que sejam, ou fome que tenham perdido subitamente... quem sabe? O que não dá pra entender é que nem o preço seria tão descartável assim, para um desperdício de tantas calorias... Ou será que, por nunca pedir batatas fritas para mim (acabo sempre pegando uma aqui outra ali das minhas filhas) é que fico com aquele ar de “água na boca” quando vejo que jogam fora? E pensar que ainda há tanta fome de batata frita por onde quer que andemos...
Às vezes, quando viajamos, e somente quando viajamos, acabamos indo a um fast food local por motivos práticos (língua ininteligível ou aquele banheiro muito bem vindo nos momentos mais inesperados por exemplo). Isso não deveria ser uma desculpa, mas quando se tem duas crianças e um orçamento controlado entre hotéis e passeios, um restaurante típico acaba ficando como evento e não como regra. O fato é que cada vez que frequentamos um lugar desses, vejo e ouço coisas que me causam aquela indegestão típica de um hamburger com batatas fritas. Adoro batatas fritas, e de vez enquando, até um hamburger bem feitinho me vai bem, se me esqueço do politicamente incorreto que é comer nesses lugares decorados de vermelho e amarelo. O que me chama sempre a atenção é o porque da maioria das pessoas que vemos ali serem obesas ou quase obesas (ok! Isso é evidente, eu sei, mas se assim é, por que continuam a comer aquelas comidas horrorosamente calóricas?) e se não o são, desperdiçam os alimentos descaradamente jogando-os naquelas bandejas dentro daqueles contenitores horrorosos. Saquinhos inteiros de batatas fritas, para não dizer do próprio hamburger meio comido meio deixado, por esnobe que sejam, ou fome que tenham perdido subitamente... quem sabe? O que não dá pra entender é que nem o preço seria tão descartável assim, para um desperdício de tantas calorias... Ou será que, por nunca pedir batatas fritas para mim (acabo sempre pegando uma aqui outra ali das minhas filhas) é que fico com aquele ar de “água na boca” quando vejo que jogam fora? E pensar que ainda há tanta fome de batata frita por onde quer que andemos...
mercoledì 26 novembre 2008
Há um gato que dorme no sofá
Há um gato que dorme no sofá enquanto chove lá fora. Não se sabe se está ali porque quer ou simplesmente porque as janelas e portas estão fechadas, o fato é que dorme. Não sei a quem pertence o gato e nem mesmo o sofá tenho notícias de que tenha sido uma doação ou um presente de algum inquilino que tenha passado por aqui, o fato é que o gato dorme e o sofá não é meu. Constato que o tempo não parece que irá melhorar nos próximos milhares de anos e o gato nem percebe isso, apenas dorme e faz aquele som irritante de quem ronrona sem preocupação alguma com o que se passa além do sofá. Estou à espreita de que ele se levante e assim eu possa recuperar o livro que ficou lá embaixo, naquela almofadinha rosa e amarela que agora serve ao gato, não que ele saiba ler, mas sabe muito bem que bem acompanhado se dorme muito melhor. Estou à espreita.
Flor de cactus
Gosto de plantas dentro de casa, ou no jardim se temos um, mais do que de animais de estimação. Talvez isso tenha muito a dizer de mim mesma, lógicamente. Quando entramos numa casa e vemos ao redor tantos objetos, estranhos ou não, tantas relíquias de gosto duvidoso, ou tantos e tantos gatos pelo sofá, cantos, corredores, ou um cão que te olha desconfiado ou ameaçador, tudo isso são sintomas do que nos espera pela frente quando acabamos de conhecer a casa de alguém.
Na nossa, podem encontrar vestígios de quatro pessoas, mais ou menos diferentes entre si, mais ou menos tão iguais que até os objetos se confundem e já não sabem a quem pertencem.
Tenho algumas plantas, principalmente cactus. Cactus? Sim, cactus de vários tamanhos e alguns bem frágeis, ao contrário do que podem imaginar. Eles são sensíveis mais do que sabemos sobre os cactus. Parecem autosuficientes, calados, pensativos, às vezes até parecem que te gritam algo incompreensível, na linguagem dos cactus obviamente e obviamente não entendemos nada e tudo fica por isso mesmo. Talvez seja por isso que há dias um deles simplesmente encolheu. Assim como se tivessem tirado seus orgãos internos, por assim dizer, seu interno verde, com sua seiva preguiçosa que há dias vinha recusando a água que raramente necessita. Coloquei-o na varanda, já que seu lugar era na estante de livros, talvez estivesse cansado da companhia que tinha e precisava de um pouco de ares novos, muita leitura acaba sempre tendo suas consequências. Afinal, deixei-o na mesinha da varanda, perto dos hamsters (esses não são meus) e um pouco longe de mim quando me sento para escrever. No entanto, continuo a observá-lo daqui, esperando que suas forças voltem e que não tenha essa aparência murcha de agora. As flores, por outro lado, ainda não vieram e talvez nem venham. Esperava vê-las nos seus companheiros que ainda estão aqui comigo na sala, mas nada. Quando surgem, se mostram tão delicadas, tão frágeis e ao mesmo tempo tão resistentes que me seduzem por semanas, são completamente impressionates, como tantas almas que, se não murcham, resistem exuberantes, fortes na aparência, mas, cuidado, uma gota a mais de água pode fazê-las desaparecer em poucos dias. Assim são as flores de cactus, cuja companhia ainda espero nesse outono cinza e chuvoso demais para um cactus.
Na nossa, podem encontrar vestígios de quatro pessoas, mais ou menos diferentes entre si, mais ou menos tão iguais que até os objetos se confundem e já não sabem a quem pertencem.
Tenho algumas plantas, principalmente cactus. Cactus? Sim, cactus de vários tamanhos e alguns bem frágeis, ao contrário do que podem imaginar. Eles são sensíveis mais do que sabemos sobre os cactus. Parecem autosuficientes, calados, pensativos, às vezes até parecem que te gritam algo incompreensível, na linguagem dos cactus obviamente e obviamente não entendemos nada e tudo fica por isso mesmo. Talvez seja por isso que há dias um deles simplesmente encolheu. Assim como se tivessem tirado seus orgãos internos, por assim dizer, seu interno verde, com sua seiva preguiçosa que há dias vinha recusando a água que raramente necessita. Coloquei-o na varanda, já que seu lugar era na estante de livros, talvez estivesse cansado da companhia que tinha e precisava de um pouco de ares novos, muita leitura acaba sempre tendo suas consequências. Afinal, deixei-o na mesinha da varanda, perto dos hamsters (esses não são meus) e um pouco longe de mim quando me sento para escrever. No entanto, continuo a observá-lo daqui, esperando que suas forças voltem e que não tenha essa aparência murcha de agora. As flores, por outro lado, ainda não vieram e talvez nem venham. Esperava vê-las nos seus companheiros que ainda estão aqui comigo na sala, mas nada. Quando surgem, se mostram tão delicadas, tão frágeis e ao mesmo tempo tão resistentes que me seduzem por semanas, são completamente impressionates, como tantas almas que, se não murcham, resistem exuberantes, fortes na aparência, mas, cuidado, uma gota a mais de água pode fazê-las desaparecer em poucos dias. Assim são as flores de cactus, cuja companhia ainda espero nesse outono cinza e chuvoso demais para um cactus.
giovedì 20 novembre 2008
Filosofando
Disseram que é uma profesora de Filosofia aposentada e sem herdeiros. Já se pode dizer muito com isso, ou quase, se não fosse o insólito de sua atitude que abrange repercussões muito bizarras. Ser intelectual, mulher e bem sucedida, pressupõe, logicamente nas mentes machistas e politicamente incorretas, que essa senhora não teve tempo nem pelo menos vocação para formar uma família, ao menos essa que estamos acostumados a dizer ser uma família: pai, mãe, filhos, tartarugas, peixinhos coloridos, hamsters e agora também um coelho que se chama Cometa e passa o dia num canto da cozinha em sua gaiola ou então passeando por entre os pés das cadeiras e sofá da sala, mas essa do coelho é uma outra história.
A história que está virando lenda em Triestre é de uma acadêmica aposentada que esta semana se despojou de seus bens antes que, num futuro próximo, acabem nas mãos do governo. Apresentou-se às autoridades e fez saber de sua decisão de doar tudo o que tem: casas na cidade, ao menos tres, casa na praia, jóias de família e dinheiro, algo bem razoável. Os felizardos são estudantes, escolhidos, dentre os melhores alunos, de forma aleatórea, na pura sorte, bem ao gosto filosófico. Não poderão se desfazer dos presentes antes dos 25 anos de idade e por enquanto terão que se contentar com o usufruto em vida da senhora misteriosa, já chamada carinhosamente de “A Dama”.
O que dizer do mistério? Ninguém sabe quem seja a misteriosa senhora nem os misteriosos afortunados. A messenas pós-moderna se esfumaça no limbo dos dias de hoje, enquanto tantos querem se fazer vistos e ilustres, uma ao menos se imortaliza na história da cidade com um ato de protesto. Ou então, o que seria essa loucura terna e sensível, numa época de cortes govenamentais para a educação e crise econômica? Apenas um aviso de conforto para os que, longe deste mundo, se veêm noutro: regido por regras diversas, com resultados diversos, mas que nos falam tão precisamente das verdades, e não apenas de uma. Essa história fala do mundo que abrange tanto o meu quanto o seu e o daquela senhora. Nada mal para uma filósofa.
A história que está virando lenda em Triestre é de uma acadêmica aposentada que esta semana se despojou de seus bens antes que, num futuro próximo, acabem nas mãos do governo. Apresentou-se às autoridades e fez saber de sua decisão de doar tudo o que tem: casas na cidade, ao menos tres, casa na praia, jóias de família e dinheiro, algo bem razoável. Os felizardos são estudantes, escolhidos, dentre os melhores alunos, de forma aleatórea, na pura sorte, bem ao gosto filosófico. Não poderão se desfazer dos presentes antes dos 25 anos de idade e por enquanto terão que se contentar com o usufruto em vida da senhora misteriosa, já chamada carinhosamente de “A Dama”.
O que dizer do mistério? Ninguém sabe quem seja a misteriosa senhora nem os misteriosos afortunados. A messenas pós-moderna se esfumaça no limbo dos dias de hoje, enquanto tantos querem se fazer vistos e ilustres, uma ao menos se imortaliza na história da cidade com um ato de protesto. Ou então, o que seria essa loucura terna e sensível, numa época de cortes govenamentais para a educação e crise econômica? Apenas um aviso de conforto para os que, longe deste mundo, se veêm noutro: regido por regras diversas, com resultados diversos, mas que nos falam tão precisamente das verdades, e não apenas de uma. Essa história fala do mundo que abrange tanto o meu quanto o seu e o daquela senhora. Nada mal para uma filósofa.
Bom dia
Depois do leite no microondas, o café na moca quase evaporando e a internet interrompida por falta de bateria, desisto de conectar-me esta manhã. Aproveito para procurar algumas palavras esquecidas ainda nas pontas dos meus dedos. Alguns já sem nenhum anel que os sustentem como num passado não muito passado assim, digamos. Houve manhãs quando esses dedos tiravam palavras de luzes que entravam pela janela, hoje, as janelas estão abertas, mas a luz da manhã ainda não chegou, o sol ainda dorme e eu deveria fazer o mesmo. No entanto, estamos aqui, a moca, a torradeira que me avisa e esses dedos que insistem em tirar palavras de onde nem sei ao certo se existam ainda. Estou em jejum. Estou com sono e quero minhas palavras de volta.
Tenho ainda alguns minutos de tentativa antes que definitivamente a solidão desta manhã acabe e alguns rostos desconhecidos tenham que contentar-se com meu bom dia sem convicção e meu olhar distraído. Sei que o dia passará como numa viagem no tempo. A espera pelo resultado contribui para meu sono inacabável. Caminharei mais rapidamente hoje.
Tenho ainda alguns minutos de tentativa antes que definitivamente a solidão desta manhã acabe e alguns rostos desconhecidos tenham que contentar-se com meu bom dia sem convicção e meu olhar distraído. Sei que o dia passará como numa viagem no tempo. A espera pelo resultado contribui para meu sono inacabável. Caminharei mais rapidamente hoje.
Ciao Bella!
Poucas vezes me lembro de desconhecidos que me cumprimentam na rua. Poucas o suficiente para não me lembrar quando foi a última vez antes das duas que me aconteceram essa manhã. Uma manhã já marcada pela sensação de que a cama seria um ótimo lugar para passar o resto das horas entre o despertar e o adormecer novamente. Aqueles dias que se você não desperta como um besouro verde, o simpático Gregor que vem e vai conforme o humor, tem-se a sensação de que as horas do dia duplicaram.
Entre uma caminhada decidida e outra meio sem rumo de hoje, respondi com um leve balançar de cabeça ao cumprimento de “buon giorno” vindo de um senhor, possivelmente estrangeiro (ainda vou entender porque consigo identifica-los!), que ao caminhar sob um pórtico ao meu lado por pouquíssimos segundos, pois eu caminhava mais rapidamente do que ele, me desejou o que duvidava que teria: um bom dia! Ok. Passado o momento de leveza, pois se não me engano, quando ainda me atrevia a certas filosofias cotidianas, esse tipo de acontecimento sempre nos carrega para uma reflexão meio metafísica ou no mínimo te faz pensar: “Será que estou com a cara suja?” ou “Exagerei nas cores hoje?” Para quem, na maioria das vezes procura passar desapercebida, um bom dia de um desconhecido te faz pensar tantas possiblidades nada satisfatórias... e o tiro acaba saindo pela culatra, pois o que seria um augurio de bom dia, uma boa intenção da parte do desconhecido, passa a ser a neurose do dia. Principalmente se na mesma manhã o dejà vù insiste e você já nem sabe o que responder de volta ou se balança novamente a cabeça e vai enfrente esperando que o dia termine e que o outono passe logo e Kafka te abandone por mais alguns anos.
Desta segunda vez parei, olhei a senhora que me dirigia a palavra e lhe disse sem mais nem menos: “Ciao, mas... eu não me lembro da senhora... nos conhecemos de onde?” e ela simples e descaradamente corretíssima em sua serenidade matinal defronte a um Cafè de Castelfranco: “Não importa, apenas um “olá” assim por nada...”
E eu fiquei com aquele “Ciao” que me martelava a testa o dia todo.
Entre uma caminhada decidida e outra meio sem rumo de hoje, respondi com um leve balançar de cabeça ao cumprimento de “buon giorno” vindo de um senhor, possivelmente estrangeiro (ainda vou entender porque consigo identifica-los!), que ao caminhar sob um pórtico ao meu lado por pouquíssimos segundos, pois eu caminhava mais rapidamente do que ele, me desejou o que duvidava que teria: um bom dia! Ok. Passado o momento de leveza, pois se não me engano, quando ainda me atrevia a certas filosofias cotidianas, esse tipo de acontecimento sempre nos carrega para uma reflexão meio metafísica ou no mínimo te faz pensar: “Será que estou com a cara suja?” ou “Exagerei nas cores hoje?” Para quem, na maioria das vezes procura passar desapercebida, um bom dia de um desconhecido te faz pensar tantas possiblidades nada satisfatórias... e o tiro acaba saindo pela culatra, pois o que seria um augurio de bom dia, uma boa intenção da parte do desconhecido, passa a ser a neurose do dia. Principalmente se na mesma manhã o dejà vù insiste e você já nem sabe o que responder de volta ou se balança novamente a cabeça e vai enfrente esperando que o dia termine e que o outono passe logo e Kafka te abandone por mais alguns anos.
Desta segunda vez parei, olhei a senhora que me dirigia a palavra e lhe disse sem mais nem menos: “Ciao, mas... eu não me lembro da senhora... nos conhecemos de onde?” e ela simples e descaradamente corretíssima em sua serenidade matinal defronte a um Cafè de Castelfranco: “Não importa, apenas um “olá” assim por nada...”
E eu fiquei com aquele “Ciao” que me martelava a testa o dia todo.
sabato 8 novembre 2008
Retorno de Kafka
Um final de semana com Kafka. Esse foi meu presente de aniversario que nao pude recusar por nada deste mundo, ainda mais quando me lembro que ha tantos anos atras, quando ainda o governo por aqueles lados era meio desconfiado com passaportes esquisitos, verdinhos e tal, deixaram-me plantada na estaçao de Domesclice esperando o trem de retorno a Munique, sem nem mesmo me deixar verificar se toda aquela neve que via pela janela do trem e depois pela porta envidraçada da estaçao estava mesmo indicando um inverno que nao queria ir embora em plena semana de pascoa, ou era somente uma mente romantica de quem faz sua primeira viagem ao velho mundo.Tudo isso revisitei neste final de semana. Dia de todos os santos, halloween, Kafka, Praga afinal.
A cidade é totalmente incrivel quando se tem em mente o que aquelas pedras e edificios ja viram na historia da cultura europeia. Um mar de fantasmas por toda parte. Visitar a Torre Branca do Castelo, com sua camera e instrumentos de tortura medievais e saber que a poucos passos dali vivia Franz Kafka com suas noites brancas e solitarias que produziriam as obras mais supreendentemente verdadeiras da nossa condiçao de insetos nesse mundo, foi um passo para transformar-me, eu também, num imenso besouro mimado comemorando seu aniversario em terras boemias.
Depois disso so tenho que dizer que Gregor me pediu uma nova visita, desta vez com mais lucidez. Serei capaz?
A cidade é totalmente incrivel quando se tem em mente o que aquelas pedras e edificios ja viram na historia da cultura europeia. Um mar de fantasmas por toda parte. Visitar a Torre Branca do Castelo, com sua camera e instrumentos de tortura medievais e saber que a poucos passos dali vivia Franz Kafka com suas noites brancas e solitarias que produziriam as obras mais supreendentemente verdadeiras da nossa condiçao de insetos nesse mundo, foi um passo para transformar-me, eu também, num imenso besouro mimado comemorando seu aniversario em terras boemias.
Depois disso so tenho que dizer que Gregor me pediu uma nova visita, desta vez com mais lucidez. Serei capaz?
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