E por falar em conflitos, alguém acreditaria que nossas férias, em principio seriam em Israel? Parece que essa preocupação com nossa segurança não ia ter jeito mesmo, não poderíamos ter cancelado de maneira alguma, pois já teria nos pego em pleno terreno de guerra. Acho que os próximos planos de viagem por aqueles lados terão que considerar que as meninas fiquem com os avós.
Depois do ano novo, depois da neve que caiu e que continua caindo por aqui, partimos de Veneza para Zurique e em seguida para Istanbul! Dias de mal tempo, afinal não estamos no período ideal para viagens, muito frio, risco de neve e certeza de chuva. Chuva quase todos os dias, mas que foram resolvidos de bom humor com capas e muita roupa quentinha.
Chegada sem problemas e a minha primeira visão da antiquíssima Constantinopla deixou-me impressionada e fascinada. Minaretes, muitos deles pontando em toda a extensão de cidade que se podia ver do avião que descia lentamente. O céu por sorte ainda estava um pouco claro, (outro problema desta época são as poucas horas de claridade que se tem para os passeios, pois às cinco horas da tarde já está escuro e ainda mais se o tempo está chuvoso), e se podia ver a cidade como nunca imaginei: mesquitas por toda a parte, erguendo-se aqui e ali. Nos dias seguintes iria ouvir de quando em quando as chamadas pelos alto-falantes desses mesmos minaretes, para os fiéis se dirigirem às mequitas para as cinco orações diárias dos muçulmanos.
Visitamos primeiramente a antiga igreja de Santa Sofia, construída para ser a maior do império romano do oriente e sem dúvida é uma das maiores igrejas já construídas. Com a queda de Constantinopla foi transformada em mesquita pelos otomanos que maravilhados com suas abóbodas e dimensões, quiseram, de certa forma, copiá-la e assim construiram a Mesquita Azul exatamente à sua frente na praça que hoje é um dos lugares mais turísticos de Istanbul.
Estar dentro de Santa Sofia, que hoje é um museu, é viajar no tempo. Lugar comum dizer isso, eu sei, mas não há outro modo de explicar. Tudo lá dentro é gigantescamente importante e significativo. O sentimento de que naquele lugar entravam imperadores do mundo antigo, pessoas que fizeram a história, deixa-nos não somente de boca aberta, mas com a mente quase paralizada, olhos atentos nos detalhes, nas cores e sombras, no espaço que nos envolve (sorte não haver tantos turistas lá dentro!) e na certeza de que somos seres paradoxalmente pequenos e gigantes ao sermos capazes de construirmos lugares como este. Este sentimento eu já havia provado antes, não é novo, mas ele se renova a cada maravilha que tenho o privilegio de conhecer deste nosso mundo. Viver para viajar e conhecer não deixa de ser um destino maravilhoso. Tenho sorte.
A visita à Mesquita Azul foi tão emocionate quanto a da igreja de Santa Sofia. Deixamos pra visitá-la depois de alguns dias e no final da tarde, o que se mostrou ser uma ótima idéia, pois as cores do céu, das luzes se acendendo, tanto na mesquita, quanto em Santa Sofia enfrente, proporcionaram fotografias maravilhosas, se não bastasse o assombro da nossa visão ao sairmos de lá de dentro.
Como o esperado, tivemos que entrar pelo lado dos turistas, tirar os sapatos e eu cobrir os cabelos. Lá dentro um espaço imenso. Silêncio, luzes pequenininhas num imenso candelabro central, tapete em todo o chão, escritos do Corão pelas paredes, azulejos azuis e brancos, e pessoas abobalhadas com toda aquela maravilha. Era hora de visita turística e por isso não se viu nenhum fiel fazendo pregação. Foi indescritível. Sentamo-nos no chão e ficamos olhando para o teto, para os lados, fechando os olhos, abrindo-os de novo para verificarmos que não estávamos sonhando. As meninas ficaram ali, sem saber muito bem a importância do que estavam presenciando, mas seguramente se maravilharam também com as cores e com a atmosfera da grande Mesquita Azul.
Os passeios seguintes foram os inevitáveis, aqueles programados e esperados. Não os esquecerei nunca! Sabemos que teremos que voltar a Istambul, pois ainda há muito o que ver e aprender. Voltei com a sensação de estar dividida entre a minha preferida Veneza e a recém apaixonante Istanbul. Qual delas me tocou mais? Qual delas me apaixonou mais, ainda não sei dizer. Veneza para mim é minha cidade eternamente linda, fantástica e misteriosa, mas Istanbul aos poucos está tomando meus pensamentos e a vontade de conhecê-la melhor já não me deixa.