Nossos poros exalam saudades que não se explica com o agradável. Muitas vezes a confusão se faz em nossa mente por estarmos procurando uma imagem e um odor que nos transporte. A procura nem sempre é consciente e quando chega o momento, já estamos tomados pela sensação de prazer, alívio ou mesmo de angústia provocada pela saudades.
A mim ocorre exatamente isso, digo, o contrário do esperado, certo perfume em outras épocas muito agradável, sofisticado diria até, traz-me de volta dias de sufoco, dúvidas e solidão, ainda que esteja associado a uma pessoa que estava prestes a escolher um caminho para compartilharmos. Na verdade, esse caminho não existia para mim. Era nada mais do que uma época de transição e descobertas de uma vida por si mesma, longe de todos e de todo espaço conhecido de toda vida. A dificuldade de linguagem e o aprendizado de um novo idioma totalmente diferente do funcionamento de meu cérebro como é o alemão, havia deixado essa brecha para tal perfume. Hoje já não o suporto nem em memória.
Depois de tanto tempo, ainda me transforma quando sem explicação alguma o sinto em algum transeunte pelas ruas, e sempre o resultado é o mesmo: desagradável demais, ainda que concordo que o perfume em si seja muito bom.
Por outro lado, todas às vezes que estou nos meus afazeres domésticos e inevitavelmente uso certo produto de limpeza à base de cloro, paralizo. Esse é o primeiro perfume de minha vida adulta. O mais tranquilo, o mais agradável ao meu corpo e sobretudo o que mais me transporta ao passado de maneira quase física. Posso reviver dias inteiros somente com um segundo sentindo cloro em meu nariz. Tenho a sensação de que nado no passado de forma nunca antes conseguida. Nado sobretudo no que fui e me tornei.
A primeira vez que senti esse perfume não gostei, afinal esse sim era um odor desagradável, mas tudo é tão relativo que com o tempo e a distância, a memória e o aprendizado, esse odor passou a ser minha passagem de ida.
Há alguns anos que tenho um estojo de pequenos perfumes, sendo que um deles usei durante toda a gravidez de minha primeira filha. Toda a experiência dessa época está guardada nesse estojo, onde de forma mágica e delicada revivo meu corpo se transformando, meus sentidos se apurando e finalmente minha vida dividida se assomando ao mundo.
São momentos que estão em mim e que os capto no mundo, no dia-a-dia atarefado de meu caminho e descobertas de novos rumos e perfumes, num processo químico e psíquico maravilhoso.
