martedì 31 marzo 2009

Perfumes

Quantos odores podemos guardar na memória? Eles nos assustam e nos fazem companhia quando a presença já não pode satisfazer. Faz com que um simples girar de olhar nos transporte para um lugar que está muito bem protegido pelo silêncio e esquecimento que o dia-a-dia requer. Associar sempre um perfume agradável a algo agradável é óbvio demais e nem sempre funciona dessa maneira.
Nossos poros exalam saudades que não se explica com o agradável. Muitas vezes a confusão se faz em nossa mente por estarmos procurando uma imagem e um odor que nos transporte. A procura nem sempre é consciente e quando chega o momento, já estamos tomados pela sensação de prazer, alívio ou mesmo de angústia provocada pela saudades.
A mim ocorre exatamente isso, digo, o contrário do esperado, certo perfume em outras épocas muito agradável, sofisticado diria até, traz-me de volta dias de sufoco, dúvidas e solidão, ainda que esteja associado a uma pessoa que estava prestes a escolher um caminho para compartilharmos. Na verdade, esse caminho não existia para mim. Era nada mais do que uma época de transição e descobertas de uma vida por si mesma, longe de todos e de todo espaço conhecido de toda vida. A dificuldade de linguagem e o aprendizado de um novo idioma totalmente diferente do funcionamento de meu cérebro como é o alemão, havia deixado essa brecha para tal perfume. Hoje já não o suporto nem em memória.
Depois de tanto tempo, ainda me transforma quando sem explicação alguma o sinto em algum transeunte pelas ruas, e sempre o resultado é o mesmo: desagradável demais, ainda que concordo que o perfume em si seja muito bom.
Por outro lado, todas às vezes que estou nos meus afazeres domésticos e inevitavelmente uso certo produto de limpeza à base de cloro, paralizo. Esse é o primeiro perfume de minha vida adulta. O mais tranquilo, o mais agradável ao meu corpo e sobretudo o que mais me transporta ao passado de maneira quase física. Posso reviver dias inteiros somente com um segundo sentindo cloro em meu nariz. Tenho a sensação de que nado no passado de forma nunca antes conseguida. Nado sobretudo no que fui e me tornei.
A primeira vez que senti esse perfume não gostei, afinal esse sim era um odor desagradável, mas tudo é tão relativo que com o tempo e a distância, a memória e o aprendizado, esse odor passou a ser minha passagem de ida.
Há alguns anos que tenho um estojo de pequenos perfumes, sendo que um deles usei durante toda a gravidez de minha primeira filha. Toda a experiência dessa época está guardada nesse estojo, onde de forma mágica e delicada revivo meu corpo se transformando, meus sentidos se apurando e finalmente minha vida dividida se assomando ao mundo.
São momentos que estão em mim e que os capto no mundo, no dia-a-dia atarefado de meu caminho e descobertas de novos rumos e perfumes, num processo químico e psíquico maravilhoso.

venerdì 27 marzo 2009

Fuga

Beethoven foi um dos primeiros compositores de sua época que compunha o que queria e nao o que lhe pediam, seguindo seriamente seu pensamento de que "um artista é todo aquele que acredita em si mesmo". Quando apresentou a fuga que ficou conhecida como a "Grosse Fuge" opus 133, ninguém entendeu nada, ninguém gostou e pior, foi chamado de "louco surdo" e sua musica criticada como sendo um erro horrivel do grande mestre Beethoven.
O fato é que ninguém mais a nao ser Beethoven poderia mesmo ter simplesmente "retirado" do mundo essa musica desconsertante. Basta ouvi-la. Basta lembrar que ele a compos completamente surdo aos sons que conhecemos como normais. Compos essa grande Fuga com sua mente clarividende que tinha, com seus ouvidos atentos que tinha e com sua emoçao de artista que foi. Uma grande chance de ouvir a nos mesmos.


PS: Beethoven falesceu em 26 de março de 1827...

giovedì 26 marzo 2009

Um olhar de retorno



Por que imigramos é a pergunta que se estampa em nossos rostos. Não há nada de sutil nessa questão, nem ao menos nada de fácil para se compreender. O motivo é cotidianamente criado em nossas mentes por questão de sobrevivência. Sou italo-brasileira, recém retornada ao Vêneto, terra de minha família paterna e materna. Terra que começo a reconhecer exatamente como a sentia nos detalhes incompreensíveis para mim então, de uma infância convivida com avós, tios e tias, todos eles de origem italiana. Sair do terreno conhecido, sair do limite da existência vivida até então, poderia ser um ato de coragem ou de covardia. Há sempre dois lados, como sempre haverá dois caminhos. Se um dia despertamos convictos do que estamos fazendo, ou se no outro somos carne, ossos e dúvida para transcorrer o dia que se nos coloca diante dos olhos cansados e sonolentos, somente nossos dias futuros nos dirão ou ao menos nos darão uma sensação a mais para a tentativa de compreensão que hoje nos é difícil, senão quase impossível. A leitura de notícias do país deixado é algo que ainda se faz necessária. Uma pequena parte do tempo pensada em como poderíamos voltar a viver nesse lugar, e a quase certeza de que não podemos mais voltar. As malas, no entanto, estão a espera. Prontas a serem colocadas no próximo trem a qualquer parte, qualquer parte que não seja o passado. Este já perdido, este já quase esquecido apesar de relembrado a cada passo dado claudicante em terreno estrangeiro. Aqui, deixei de ser estrangeira. Tornei-me cidadã de dois mundos tão distantes quanto vizinhos em seu passado de imigrações. Se há um século, milhares de europeus imigraram em diversas direções, principalmente à América, hoje essa invasão, como a chamam os meios de comunicações e governos xenófobos, faz com que sintamos o quanto o mundo caminha para se transformar numa única pátria. A pátria do ser humano que se desloca e se coloca num habitat escolhido. Já não está a mercê do destino que lhe coube enquanto ser que nasce num dado lugar, num dado tempo. Escolhe sua casa, escolhe seu trabalho, escolhe seu espaço. Estamos escolhendo nosso céu que nos proteje. Estamos provando o gosto do estranho, a cada dia transformamos o estranho em conhecido, deixamos de ser estrangeiros e o passamos a ser a cada dia, eis o grande desafio e paradoxo de nossos dias. Provar um novo sabor hoje, para mim, vai muito além do simples saber seus ingredientes e juntá-los com cuidado e curiosidade para servi-lo e saboreá-lo à mesa. Hoje, tenho em mente que uma outra história se esconde na folha de basílico ou no pinole que acabo de adicionar ao prato. Alguns desses ingredientes passaram décadas até serem reconhecidos como velhos sabores no dia-a-dia vêneto. Passo a imaginar as modificações que causaram ao chegar à América e que causariam ao desaparecerem com seus imigrantes às avessas. Sinto-me como uma imigrante às avessas. Tomar parte desse espaço hoje, depois de pouco mais de cem anos, nem tanto, é um retorno de uma longa viagem de reconhecimento, de abastecimento, de fim de experiência a longo prazo e de consequências incontroláveis aos que aqui na Itália ficaram, e aos que morreram tão longe de casa, deixando uma grande família de desconhecidos e quase alienados da história verdadeira da partida, de um recomeço e de todo o significado de uma vida longe de casa. Para o imigrante, muitas vezes reina o silêncio. Sei agora que sentir-se em casa depende de muitas coisas, muito esforço e aprendizado. A cada gesto sutil de um simples apertar de mãos, olhar nos olhos ou fugir desse olhar no confronto com alguém, reconheço gestos de quem nasceu longe, cresceu e vive sem nunca ter visto os campos vênetos e suas cores, seu verão e seu inverno, seus radíquios de estação na mesa e a polenta que lembra os dias difíceis de uma época não tão longe assim. Lembro-me dos rostos de minha família, lembro-me do dialeto vêneto que então pensava ser um português mal falado, mas que era, ao contrário, um dialeto que vive ainda, repleto de riqueza cultural de seus falantes, seus termos carregados na mala de quem partiu e que não imaginava voltar nas malas de seus descendentes. Começo a aprender a olhar. Um olhar consentido e com sentido. Para trás e principalmente para frente. Voltar e trazer notícias longínquas, no tempo e no espaço e não deixar que o cheiro de basílico se perca no tempo novamente.

mercoledì 25 marzo 2009

Nossa viagem


Sabado passado saimos para comemorar. Ja se passaram onze anos e ainda estamos com o mesmo pé-na-estrada com que iniciamos nossa viagem. O mesmo entusiasmo e a mesma vontade de conhecer lugares e se conhecer, o que acaba sendo inevitavel e muitissimo importante, pois se nao fosse assim, como ficar juntos por tanto tempo? Como manter o interesse e como ainda conseguir surpreender um ao outro? Acho que estamos no caminho, embora algumas vezes possa parecer a nos mesmos que pegamos um beco sem saida, mas no final a paisagem que se mostra é maravilhosa e todo o possivel desconforto de uma viagem "mochileira" acaba dando grande prazer, como tudo nessa vida... E nossas filhas sao um presente lindissimo que recebemos de Deus por termos acreditado que sozinho nao se chega a nenhuma parte...

sabato 14 marzo 2009

Ghetto

Ghetto è o nome do “quartieri” onde, desde 1516, deviam morar os judeus residentes em Veneza por ordem do governo. A presença de judeus sempre provocou mal humor e desconfiança pela inveja ao poder financeiro que apresentavam além da historica antipatia crista verso esse povo. Decide-se portanto de dar-lhes uma pequena ilha da laguna a que foi logo chamada de Ghetto Vechio. A origem da palavra, provavelmente è devido ao fato de que nesta area se desenvolvia antigamente a fundiçao publica, onde portanto se “fundia”, ou seja, “gettavano”. E por ser Veneza a cidade da época que mais se destacava, esse termo se difundiu e entrou em uso em toda a Europa para denominar o ambiente obrigatorio reservado aos judeus.
O Ghetto era circundado de um alto muro e seus habitantes nao podiam sair de noite do “quartieri”, pois do anoitecer até o amanhacer eram fechadas as portas e levantadas as pontes que faziam a ligaçao do canal circundante.
Andar pelo Ghetto veneziano è uma experiencia unica: Sinagogas e construçoes de casas estreitas e altas de até oito andares, para suprirem o pouco espaço que lhes era reservado. Ainda hoje, se andarmos em silencio, se olharmos para cima e observarmos cada detalhe, podemos quase sentir seus habitantes de antigamente…

giovedì 12 marzo 2009

Meu desktop no La Repubblica...

E nao é que foi escolhido para participar? olhem sò.... http://www.repubblica.it/2008/12/gallerie/tecnologie/desktop-145/17.html

O dia das mulheres por aqui...

O dia das mulheres passou. Houve aqui na cidade uma comemoraçao com apresentaçao de Concerto musical e leitura de poemas a que fui convidada para ler um poema em lingua portuguesa de autor brasileiro. Fui com prazer encontrar-me com a organizadora. Estava curiosa para saber qual poema iria ler, quando foi grande a minha decepçao. Tinham colocado no programa a cantiga de roda "se essa rua fosse minha..." O que acontece com os autores brasileiros? Gostaria de saber por onde andam? Nao ha traduçoes? Nao ha interesse? Ora! Fiquei chocada e triste. Disse que voltava com um texto de verdade.
Levei um poema de Cora Coralina, ja que o dia era para se falar de mulheres... e aqui esta o texto que li, juntamente com outras leituras de textos de diversas linguas com as respectivas traduçoes em italiano para o publico que estava presente.


Aninha e suas pedras


Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

lunedì 2 marzo 2009

Leituras do Paraiso


Meu pai tinha uma coleção de revistas enciclopédicas. Creio que ainda a tem, e que ainda estão no mesmo lugar de onde eu as tirava escondida e as lia de maneira desesperada, olhando vez e outra se não se aproximava ninguém que fosse me tirar dalí, ainda que não soubesse o porquê desse temor e ainda que também não soubesse nessa época, que ninguém iria me tirar daí, que ninguém de fato iria se importar com o que estivesse lendo ou descobrindo.
Eram fascículos de uma edição “Bloch” dos anos 60. Estava começando a ler minhas primeiras palavras e meus primeiros assombros, quando descobri essas revistas de meu pai. Ficavam numa gaveta muito grande de sua escrivanhia. Até hoje não sei o porquê de estarem tão guardadas, quando na verdade deveriam estar à vista, numa estante de livros ou ainda sobre mesas, móveis e inclusive junto a nossos brinquedos, esparramados os livros e as crianças.
Comecei a ler muito tarde. Tinha sete anos quando fui alfabetizada, três anos a mais que minha filha que aos cinco já sabia que a leitura de Don Quixote pode nos deixar malucos, nas palavras dela. Preocupou-se quando eu lhe disse que iria ler as aventuras desse cavaleiro dos sonhos, dizendo-me que eu ia acabar vendo dragões em moinhos de vento. Que imagem maravilhosa se tem aos cinco anos. Que sentimento maravilhoso tive então ao ouvi-la tão singela e sincera em sua preocupação de menina que começa em suas descobertas.
Minhas descobertas literárias são recordações que tenho e que me tomam de emoção e sentimento de se estar num mundo das maravilhas, ainda que então, tais descobertas me maravilhavam de uma maneira assustadora.
Foi numa edição sobre Dante Alighiere e sua Comédia Humana. Havia gravuras, imagens impressionantes para uma criança que tomava tudo quanto via escrito ou registrado em papel, como sendo verdadeiro. Um registro da verdade do mundo. Um registro da realidade que sábios colocavam em livros. Assim pensava essa menina nos seus primeiros anos de leitora.
Não se pode dizer que essa confusão de entendimento não ocorra sempre, ainda hoje, com leitores mais experientes que essa leitora de então. Na verdade, a magia de se entrar no mundo da leitura, pode ser complexamente comparável à magia de se tornar adulto, mulher, mãe. Exagero.
Minhas impressões do que fosse real e imaginação não existiam para o papel. Se algo se apresentava como conto fictício, aceitava-o como tal, mas se algo se apresentava como uma reportagem, ainda que não soubesse o que fosse isso, desconfiava que deveria aceitar como algo verdadeiro e real. E foi assim que acreditei que o Inferno existia realmente e que até se poderia ter imagens dele, afinal “esse tal” Dante, de quem até uma pintura aparecia junto ao texto, havia estado nele, até diziam quantos dias e quantas pessoas havia encontrado por lá. “Um tal” Virgílio e todas aquelas pessoas que sofriam no Purgatório. Foi aterrador para a menina que começava seu mundo de leitora. Pensava então porque tanta gente duvidava ainda da existência do Inferno. Não sabiam que Dante havia estado nele e que havia feito um relato sobre isso? Não sabiam que havia tantos degraus para se descer ao Purgatório que era a primeira parada para então se chegar ao último estágio, o tão temível e desacreditado Inferno?
Passei anos acreditando que Dante havia descido realmente aos Infernos para nos descrever a Comédia Humana. Hoje, apesar de já saber ler textos e não apenas palavras, ainda acredito e talvez com mais certeza ainda, que Dante realmente desceu aos Infernos para nos trazer o retrato da comédia humana em que vivemos.

domenica 1 marzo 2009

Beatrice e Dante

Entrando no tema do Eleituras desse mes, os pecados Capitais, minha amiga escolheu a Divina Comédia... nada mais nada menos... e eu me lembrei de ressaltar essa figura que serve a Dante, depois de Virgilio, para o conduzir pelos caminhos do Inferno...Purgatorio... e finalmente o Paraiso. Dante ve em Beatrice, sua elevaçao espiritual e moral, ja que no ambito terreno sua relaçao foi de uma amor "cortes"... platonico...
Beatrice, a mulher amada em sua juventude, foi a musa a quem Dante dedicou diversos poemas enquanto vive, quando morre, em 1290, aos vinte e quatro anos apenas, continuou a ser presente para o poeta, símbolo e figura da Teologia, que para Dante era a ciência das coisas elevadas através das quais o Homem chegaria à felicidade eterna.
Na verdade, segundo Boccaccio, viveu em Florença, no tempo de Dante, uma mulher chamada Beatrice, filha de nobre de sobrenome Portinari (!!) e casada com um cavaleiro de nome de’Bardi.
Mas o que interessa mesmo é sua presença na eterna obra de nada mais nada menos do que sete séculos, n’ A Divina Comédia de Dante Alighieri, uma obra magistral e hermética. Beatrice, ou Beatriz… vive ainda hoje, e não porque tenha feito algo que possamos dizer tenha mudado muita coisa no mundo (ao menos que saibamos!), mas porque viveu no desejo platônico de um poeta. Porque passou da dimensão real à ficcional e desta para a realidade que nos interessa aqui, a literária, a poética e a do imaginário coletivo a partir de então. Quem pode dizer que não? E no entanto, lá está ela: Beatrice… a musa de Dante, sua amada, apenas uma mulher amada…