E por falar em sossego, quero dizer, aquele que traz os inevitáveis desejos que podem te trazer também inevitáveis confusões, começamos mais um período pós-carnaval e no Brasil, o verdadeiro início do ano, com volta às aulas, ao trabalho com vontade e dedicação (?) e aqueles quarenta dias para você pensar no que faz da vida! Quarenta dias todinhos para sua consciência, já que no resto do ano nos esquecemos que faz mal exagerar. E digo exagerar em tudo, não apenas na gula, diga-se de passagem. Falemos então dos exageros, ou se quiser, dos pecados, pois todo exagero tende a ser um dos famosos pecados capitais dos quais todos nós não estamos livres de cometer. Façamos uma revisão pessoal. Gula se combate com regime, certo? Tentativas à parte, acho muito superficial e ineficiente. O que deveríamos mesmo era ao invés de colocarmos nossa fotografia na porta da geladeira, colocarmos as últimas noticias da FAO, isso sim.
Outro. Vaidade. Vaidade das vaidades, está na Bíblia, está nos Eclesiastes, ditos de Salomão, o sabio: “Onde há muita sabedoria há muito enfado e quem aumenta sua sabedoria, aumenta sua dor”. E ainda em Corintios: quem se pensa muito sábio menospreza seu semelhante. Verdade. Basta prestar atenção e saberemos que a soberbia do conhecimento nada acrescenta além da distância do nosso semelhante. Raramente vemos pessoas que utilizam sua sabedoria para ajudar (sim, elas existem), muitas vezes serve apenas para sentirem-se superiores e com o direito de estarem desfrutando dos mais fracos e menos cultos. Basta dar uma olhadinha no mundo moderno. A crise pela qual o mundo está passando hoje é resultado deste desfrutamento desde o início da industrialização. Há quem trabalha e há quem desfruta! Há países que trabalham e países que dão golpes financeiros com repercussões mundiais, alguma idéia do que estou falando?E como todo conhecimento é desvio do corriqueiro, chegamos no mundo da Arte. O artifício que pretende imitar a Criação. Toda tentativa de arte tem lá no fundo um detalhe maligno. Digo isso com dor, pois o meu maior pecado, e agora confesso, é a soberbia do saber. Arte e Literatura são um mundo à parte a que dou tanta ou maior importância do que esse em que tenho que pagar minhas contas ao banco.
Não podemos negar a pretensão de querer ser “Criador”. Não se pode querer negar que ao criar um mundo ficcional, pretendemos que esse seja verossímil, pretendemos que esse tenha todos os elementos, e às vezes criamos outros desconhecidos, que existem no mundo já conhecido pelos seres humanos desde Adão e Eva. E eis que a primeira pretensão de saber foi dela, dela mesma... e acabamos por levar a culpa também disso!
Orgulho. Pretensão de Ser, mas ser exatamente o quê? Pretensão de ser visto, mas ser extamente visto por quem? Escrever, criar literatura, criar composições musicais maravilhosas, deixar essa marca visível no mundo de nossa passagem êfemera por ele. Deixar nosso rastro e lutar contra a invisibilidade. Soberbia. Eis tudo sobre o que pretendo refletir nesses quarenta dias, e enquanto isso terei como dieta a maçã, somente ela...