Meu pai tinha uma coleção de revistas enciclopédicas. Creio que ainda a tem, e que ainda estão no mesmo lugar de onde eu as tirava escondida e as lia de maneira desesperada, olhando vez e outra se não se aproximava ninguém que fosse me tirar dalí, ainda que não soubesse o porquê desse temor e ainda que também não soubesse nessa época, que ninguém iria me tirar daí, que ninguém de fato iria se importar com o que estivesse lendo ou descobrindo.
Eram fascículos de uma edição “Bloch” dos anos 60. Estava começando a ler minhas primeiras palavras e meus primeiros assombros, quando descobri essas revistas de meu pai. Ficavam numa gaveta muito grande de sua escrivanhia. Até hoje não sei o porquê de estarem tão guardadas, quando na verdade deveriam estar à vista, numa estante de livros ou ainda sobre mesas, móveis e inclusive junto a nossos brinquedos, esparramados os livros e as crianças.
Comecei a ler muito tarde. Tinha sete anos quando fui alfabetizada, três anos a mais que minha filha que aos cinco já sabia que a leitura de Don Quixote pode nos deixar malucos, nas palavras dela. Preocupou-se quando eu lhe disse que iria ler as aventuras desse cavaleiro dos sonhos, dizendo-me que eu ia acabar vendo dragões em moinhos de vento. Que imagem maravilhosa se tem aos cinco anos. Que sentimento maravilhoso tive então ao ouvi-la tão singela e sincera em sua preocupação de menina que começa em suas descobertas.
Minhas descobertas literárias são recordações que tenho e que me tomam de emoção e sentimento de se estar num mundo das maravilhas, ainda que então, tais descobertas me maravilhavam de uma maneira assustadora.
Foi numa edição sobre Dante Alighiere e sua Comédia Humana. Havia gravuras, imagens impressionantes para uma criança que tomava tudo quanto via escrito ou registrado em papel, como sendo verdadeiro. Um registro da verdade do mundo. Um registro da realidade que sábios colocavam em livros. Assim pensava essa menina nos seus primeiros anos de leitora.
Não se pode dizer que essa confusão de entendimento não ocorra sempre, ainda hoje, com leitores mais experientes que essa leitora de então. Na verdade, a magia de se entrar no mundo da leitura, pode ser complexamente comparável à magia de se tornar adulto, mulher, mãe. Exagero.
Minhas impressões do que fosse real e imaginação não existiam para o papel. Se algo se apresentava como conto fictício, aceitava-o como tal, mas se algo se apresentava como uma reportagem, ainda que não soubesse o que fosse isso, desconfiava que deveria aceitar como algo verdadeiro e real. E foi assim que acreditei que o Inferno existia realmente e que até se poderia ter imagens dele, afinal “esse tal” Dante, de quem até uma pintura aparecia junto ao texto, havia estado nele, até diziam quantos dias e quantas pessoas havia encontrado por lá. “Um tal” Virgílio e todas aquelas pessoas que sofriam no Purgatório. Foi aterrador para a menina que começava seu mundo de leitora. Pensava então porque tanta gente duvidava ainda da existência do Inferno. Não sabiam que Dante havia estado nele e que havia feito um relato sobre isso? Não sabiam que havia tantos degraus para se descer ao Purgatório que era a primeira parada para então se chegar ao último estágio, o tão temível e desacreditado Inferno?
Passei anos acreditando que Dante havia descido realmente aos Infernos para nos descrever a Comédia Humana. Hoje, apesar de já saber ler textos e não apenas palavras, ainda acredito e talvez com mais certeza ainda, que Dante realmente desceu aos Infernos para nos trazer o retrato da comédia humana em que vivemos.
Eram fascículos de uma edição “Bloch” dos anos 60. Estava começando a ler minhas primeiras palavras e meus primeiros assombros, quando descobri essas revistas de meu pai. Ficavam numa gaveta muito grande de sua escrivanhia. Até hoje não sei o porquê de estarem tão guardadas, quando na verdade deveriam estar à vista, numa estante de livros ou ainda sobre mesas, móveis e inclusive junto a nossos brinquedos, esparramados os livros e as crianças.
Comecei a ler muito tarde. Tinha sete anos quando fui alfabetizada, três anos a mais que minha filha que aos cinco já sabia que a leitura de Don Quixote pode nos deixar malucos, nas palavras dela. Preocupou-se quando eu lhe disse que iria ler as aventuras desse cavaleiro dos sonhos, dizendo-me que eu ia acabar vendo dragões em moinhos de vento. Que imagem maravilhosa se tem aos cinco anos. Que sentimento maravilhoso tive então ao ouvi-la tão singela e sincera em sua preocupação de menina que começa em suas descobertas.
Minhas descobertas literárias são recordações que tenho e que me tomam de emoção e sentimento de se estar num mundo das maravilhas, ainda que então, tais descobertas me maravilhavam de uma maneira assustadora.
Foi numa edição sobre Dante Alighiere e sua Comédia Humana. Havia gravuras, imagens impressionantes para uma criança que tomava tudo quanto via escrito ou registrado em papel, como sendo verdadeiro. Um registro da verdade do mundo. Um registro da realidade que sábios colocavam em livros. Assim pensava essa menina nos seus primeiros anos de leitora.
Não se pode dizer que essa confusão de entendimento não ocorra sempre, ainda hoje, com leitores mais experientes que essa leitora de então. Na verdade, a magia de se entrar no mundo da leitura, pode ser complexamente comparável à magia de se tornar adulto, mulher, mãe. Exagero.
Minhas impressões do que fosse real e imaginação não existiam para o papel. Se algo se apresentava como conto fictício, aceitava-o como tal, mas se algo se apresentava como uma reportagem, ainda que não soubesse o que fosse isso, desconfiava que deveria aceitar como algo verdadeiro e real. E foi assim que acreditei que o Inferno existia realmente e que até se poderia ter imagens dele, afinal “esse tal” Dante, de quem até uma pintura aparecia junto ao texto, havia estado nele, até diziam quantos dias e quantas pessoas havia encontrado por lá. “Um tal” Virgílio e todas aquelas pessoas que sofriam no Purgatório. Foi aterrador para a menina que começava seu mundo de leitora. Pensava então porque tanta gente duvidava ainda da existência do Inferno. Não sabiam que Dante havia estado nele e que havia feito um relato sobre isso? Não sabiam que havia tantos degraus para se descer ao Purgatório que era a primeira parada para então se chegar ao último estágio, o tão temível e desacreditado Inferno?
Passei anos acreditando que Dante havia descido realmente aos Infernos para nos descrever a Comédia Humana. Hoje, apesar de já saber ler textos e não apenas palavras, ainda acredito e talvez com mais certeza ainda, que Dante realmente desceu aos Infernos para nos trazer o retrato da comédia humana em que vivemos.
Nessun commento:
Posta un commento