Por que imigramos é a pergunta que se estampa em nossos rostos. Não há nada de sutil nessa questão, nem ao menos nada de fácil para se compreender. O motivo é cotidianamente criado em nossas mentes por questão de sobrevivência. Sou italo-brasileira, recém retornada ao Vêneto, terra de minha família paterna e materna. Terra que começo a reconhecer exatamente como a sentia nos detalhes incompreensíveis para mim então, de uma infância convivida com avós, tios e tias, todos eles de origem italiana. Sair do terreno conhecido, sair do limite da existência vivida até então, poderia ser um ato de coragem ou de covardia. Há sempre dois lados, como sempre haverá dois caminhos. Se um dia despertamos convictos do que estamos fazendo, ou se no outro somos carne, ossos e dúvida para transcorrer o dia que se nos coloca diante dos olhos cansados e sonolentos, somente nossos dias futuros nos dirão ou ao menos nos darão uma sensação a mais para a tentativa de compreensão que hoje nos é difícil, senão quase impossível. A leitura de notícias do país deixado é algo que ainda se faz necessária. Uma pequena parte do tempo pensada em como poderíamos voltar a viver nesse lugar, e a quase certeza de que não podemos mais voltar. As malas, no entanto, estão a espera. Prontas a serem colocadas no próximo trem a qualquer parte, qualquer parte que não seja o passado. Este já perdido, este já quase esquecido apesar de relembrado a cada passo dado claudicante em terreno estrangeiro. Aqui, deixei de ser estrangeira. Tornei-me cidadã de dois mundos tão distantes quanto vizinhos em seu passado de imigrações. Se há um século, milhares de europeus imigraram em diversas direções, principalmente à América, hoje essa invasão, como a chamam os meios de comunicações e governos xenófobos, faz com que sintamos o quanto o mundo caminha para se transformar numa única pátria. A pátria do ser humano que se desloca e se coloca num habitat escolhido. Já não está a mercê do destino que lhe coube enquanto ser que nasce num dado lugar, num dado tempo. Escolhe sua casa, escolhe seu trabalho, escolhe seu espaço. Estamos escolhendo nosso céu que nos proteje. Estamos provando o gosto do estranho, a cada dia transformamos o estranho em conhecido, deixamos de ser estrangeiros e o passamos a ser a cada dia, eis o grande desafio e paradoxo de nossos dias. Provar um novo sabor hoje, para mim, vai muito além do simples saber seus ingredientes e juntá-los com cuidado e curiosidade para servi-lo e saboreá-lo à mesa. Hoje, tenho em mente que uma outra história se esconde na folha de basílico ou no pinole que acabo de adicionar ao prato. Alguns desses ingredientes passaram décadas até serem reconhecidos como velhos sabores no dia-a-dia vêneto. Passo a imaginar as modificações que causaram ao chegar à América e que causariam ao desaparecerem com seus imigrantes às avessas. Sinto-me como uma imigrante às avessas. Tomar parte desse espaço hoje, depois de pouco mais de cem anos, nem tanto, é um retorno de uma longa viagem de reconhecimento, de abastecimento, de fim de experiência a longo prazo e de consequências incontroláveis aos que aqui na Itália ficaram, e aos que morreram tão longe de casa, deixando uma grande família de desconhecidos e quase alienados da história verdadeira da partida, de um recomeço e de todo o significado de uma vida longe de casa. Para o imigrante, muitas vezes reina o silêncio. Sei agora que sentir-se em casa depende de muitas coisas, muito esforço e aprendizado. A cada gesto sutil de um simples apertar de mãos, olhar nos olhos ou fugir desse olhar no confronto com alguém, reconheço gestos de quem nasceu longe, cresceu e vive sem nunca ter visto os campos vênetos e suas cores, seu verão e seu inverno, seus radíquios de estação na mesa e a polenta que lembra os dias difíceis de uma época não tão longe assim. Lembro-me dos rostos de minha família, lembro-me do dialeto vêneto que então pensava ser um português mal falado, mas que era, ao contrário, um dialeto que vive ainda, repleto de riqueza cultural de seus falantes, seus termos carregados na mala de quem partiu e que não imaginava voltar nas malas de seus descendentes. Começo a aprender a olhar. Um olhar consentido e com sentido. Para trás e principalmente para frente. Voltar e trazer notícias longínquas, no tempo e no espaço e não deixar que o cheiro de basílico se perca no tempo novamente.
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