venerdì 15 ottobre 2010

Um encontro com T.B.

O outono chegava rápido demais. O sol ainda relutante e toda a paisagem tendo que se acostumar com outros ares, mais frios, mais desesperados por luz e esse vento que se faz sentir a cada caminhada em direção ao mar. O vento não a incomodava, não aqui, nessa praia que sem ele, não seria nada além de uma pintura realista demais para seu gosto dramático e triste. No entanto estava feliz. Tinha sua memória iluminada pelos anos que pouco a pouco foi guardando e pouco a pouco distribuindo aos seus amores conquistados. Uma vez ou outra sim que desfalecia ao ouvir seu destino, mas seu mundo continuava alí, intocável a quem não possuia a chave para entrar. E eram poucos os que se atreviam, sobretudo nessa ilha. Mallorca sempre lhe pareceu um lugar apartado de tudo. Ilhas são simbólicas e merecem que lhe sejam atribuidas uma carga na atmosfera que se forma a cada um que em suas praias se paraliza, justamente no momento de olhar o mar e sentir o vento insistente no rosto. Um rosto que nao deixa de carregar seus olhos fechados, que somente alí sentem que podem-se abrir um pouquinho de cada vez, somente para que um pouco do azul entre e faça sua parte na memória. Naquelas areias, seu encontro estava preparado para a materialização das palavras das quais há tempos vinha se alimentando. Na verdade, já não lia seus livros. Depois de leituras atentas e necessitadas, já não lia os livros do austríaco preferido desde os anos da faculdade. Sua literatura, depois de um efeito de reconhecimento, já havia deixado espaço para outros mistérios e hibernava, isso sim, durante anos. Tentativas de interpretação somente a confundiam. Na verdade o entendimento que lhe causava a obra de Thomas Bernhard era algo fora das areias que pisava naquele instante. Não pertencia a esse mundo e no entanto pertencia ao mundo do ser humano, demasiadamente humano. Desesperadamente humano demais para ser entendido e aceito como natural e belo, feliz e compassivo. A angústia que compartia com as páginas criadas para sustentarem um idioma rebuscado e claustrofóbico como soa o alemão em seu cérebro, escritas quase sem fôlego por um homem de cujo ritmo e música impregnou sua escritura e que sutilmente fez ser capaz de se ouvir por entre as linhas que criou, ainda permanece nela e ficará para sempre nos ventos que varrem Mallorca. Depois da caminhada e da certeza de que o mar não traria nenhuma outra lembrança naquela manhã, voltou pelas margens nada movimentadas que a conduziriam até o hotel onde deixara suas poucas coisas há dois dias quando chegou à ilha. Quando decidiu seguir viagem, já sabia que sua bagagem teria que ser reduzida, tanto quanto a que carregara por toda a vida até então. Poucas trocas de roupa para poucos dias inspirados pela atmosfera nem sempre tranquila. Ele por sua vez, quando o encontrou afinal, parecia muito confortável em suas vestimentas de bom gosto e posses. Nem sempre tinha sido assim, apesar da desenvoltura de seus gestos, sua vida foi aprendida passo a passo com a dificuldade da sobrevivencia. Seu avô impregnava seus movimentos. Todo seu pensamento havia passado pelo aprendizado nao de sua mãe, uma pessoa quase ausente em sua vida, para quem ele, Thomas, era a imagem real e persistente de um marido que a abandonara, mas de seu avo, presente e real em sua mente. Sua mae sempre acusadora, instigante e angustiada, provocara reaçoes de rechaço, distanciamento e desencanto para o menino que crescia solitário. Aqueles ares de ilha lhe faziam bem. Uma porçao de terra para se deslocar e um mar de possibilidades oferecidos a cada manha, mesmo com toda a limitaçao. Sensaçao estranha essa de se olhar para o mar a partir de uma pedaço de terra apartado de tudo. Rochas e vento e muito espaço a frente. Algo que pode causar um encanto e paralizar o pensamento para somente se ouvir o canto das sereias. Esse sim real nessas condiçoes. Um canto de sereia é também o que se pode ouvir ao abrir o livro que carregava numa dessas manhas frias, apesar do sol timido e autoritatio em sua presença. Abriu e entrou naquele mundo presenteado por Thomas Bernhard, um homem ainda por conhecer, ainda que isso nao seja de todo necessario. Ler sua musica sim, muitissimo necessario naquela areia, naquele ar, naquela atmosfera incompreesivel. O que sabia ele de tudo aquilo que estava por acontecer? Um encontro fora das paginas escritas em suas linhas tortuosas bem ou mal escritas com tudo o que aprendera da vida ou o que ao menos conhecia da vida como tal. O que viria depois é simplesmente papel e leitores angustiados, mergulhados em uma sintaxe particular e fascinate, miraculosa no que se refere ao poder de prender mente e coraçao, pele e tato, olfato e principalmente a audiçao para tudo o que até entao nao era possivel sentir, nao era conhecido e nao era permitido. Afinal, do que nao compreendemos, fatalmente nos afastamos. Inevitavelmente. O encontro entao, paradoxal, estava por acontecer. Tudo estava escrito e por acontecer, desde que as linhas tivessem um minimo de verossimil, um minimo de criaçao possivel no cotidiano de pessoas estranhas a ele e a ela, a leitora. Enfim a leitura inicia. Ainda que a direçao que tomavam era diversa e contraria, ele caminhava verso sul e ela inevitavelmente verso o norte, ainda que a areia fosse quase a mesma, com alguns resquiscios da noite e da mare que pouco a pouco recuou e deixou molhado o caminho que agora recebia as marcas dos seus sapatos, ainda que tudo isso fosse apagado logo depois pelas ondas que sempre chegam, nao importa o quanto profunda seja a marca deixada, ainda que tudo isso, em segundos de deja vu fosse acontecer, o encontro pareceu fisico demais. Fisico. Dois corpos nao ocupam o mesmo espaço, e no entanto sentia-se tao pegada e tao arrastada por ele na direçao oposta. Virou-se e girou suas pernas, deixando uma dança de pés na areia, para redesenhar seu caminho. E assim o fez. Seguiu a escritura, a outra. Estava na direçao de Thomas Bernhard.

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